Construindo o meu caiaque
Finalmente resolvi encarar o desafio de construir um caiaque de compensado naval. O primeiro passo foi a aquisição dos planos para tanto, encontrei um projeto interessante no seguinte endereço: http://www.arqnav.com.br/ em contato com o proprietário do mesmo, o engenheiro naval Ronaldo Fazanelli recebi orientações sobre o melhor modelo a escolher dentro das minhas necessidades e considerando também a imperícia quanto a arte da marcenaria.Defini-me então pelo modelo P 121 (Caiaque multichine 16').
De posse dos planos, adquiri as 3 folhas de compensado naval necessárias para a confecção do caiaque, segui as orientações do manual e fiz os riscos paralelos a cada 10 cm perpendicular ao lado maior da folha. Estes riscos servem para orientar o desenho das partes que compõem o barco.
Levei três noites e a manhã do dia 8 de dezembro (feriado aqui em Aracaju, dia da padroeira) para realizar a tarefa.
Na primeira noite de trabalho usei um lápis grafite comum para fazer os riscos que me causou alguns problemas pois tinha que apontá-lo a todo instante, foi então que lembrei da infância quando acompanha meu pai em visita a um marceneiro e este usava um lápis especial. Na manhã seguinte encontrei o lápis adequado para o trabalho numa loja de material de construção. Outros instrumentos que me foram úteis foram: um esquadro, uma trena e uma régua improvisada de uma peça de alumínio usada para dependurar cortinas.
Enfrentei uma pequena cara feia de minha esposa quando cheguei no apartamento com as folhas de compensado, nos quatro dias que trabalhei no desenho das peças a sala do apartamento ficou um tanto bagunçada.
Como estava sob “ameaça” não ousei fazer o corte das peças dentro do apartamento, apenas fiz três cortes longitudinais nas folhas de compensado para facilitar o transporte sobre o hack do carro.
No domingo, 11 de dezembro continuei o trabalho de corte das peças, desta feita na casa de praia livre das “ameaças”.
Nesse trabalho estou utilizando uma serra tico-tico que adquiri, e é com ela que apareceu o meu primeiro problema, a serra não resistiu ao trabalho e apresentou um desgaste prematuro nas engrenagens que me obrigou a interromper o trabalho sem concluir totalmente os cortes. Aproveitei então o restante do tempo para dar acabamento as peças já cortadas com uma plaina e lixa.


Como sou “marinheiro
de primeira viagem” na construção de barcos,
tenho pesquisado bastante na Internet em busca de orientações
para o desenvolvimento do trabalho. Um site bem interessante é
o www.clcboats.com que oferece
bastante dicas para a confecção de caiaque em
compensado naval.
Sábado dia 7 de janeiro de 2006, continuei o trabalho, com a tico-tico já consertada cortei as peças que faltavam.
Na seqüência dediquei-me a feitura dos chanfros nas peças, neste ponto encontrei um obstáculo quanto a ferramenta apropriada para a confecção dos referidos, pois a plaina que possuo não deu conta do recado, recorri então a um marceneiro que executou o trabalho com uma lixadeira circular.
Acredito que a lixadeira seja o melhor instrumento para a feitura dos chanfros, lembrei-me então que existe no mercado um kit para ser adaptado a furadeiras que as transformam em lixadeiras circulares, adquiri um e com ele fiz o acabamento necessário nas peças para a colagem.
Com todo o material cortado iniciei na tarde do dia 18/01/2006 o processo de colagem. Quanto a resina epoxi a ser utilizada não encontrei aqui em Aracaju, comprei a mesma em Salvador, mas ir em Salvador apenas para comprar a resina é um desaforo, passei o final de semana por lá e aproveitei um pouco os encantos da boa terra.
De fato a colagem para mim é o processo mais crítico, pois estou fazendo isto pela primeira vez, e não se pode dar vacilo senão todo trabalho anterior será perdido. Mesmo com toda apreensão preparei a resina como recomendado e colei as primeiras peças, aproveitando a sobra da resina para impregnar uma parte da madeira.
No dia 20/01/2006, retornei a casa de praia para continuar o trabalho ainda apreensivo quanto ao resultado da primeira experiência, o alívio me veio quando verifiquei que tudo estava correto as peças estavam coladas sem nenhum problema, então preparei mais uma porção de resina e colei e impregnei outras peças. Neste momento o trabalho requer um pouco de paciência, pois é necessário aguardar a cura da resina que ocorre por volta de 36 horas, o fato se agrava, como é o meu caso, quando não se tem espaço suficiente para realizar o trabalho todo de uma vez.




Uma dica interessante que também encontrei no site www.clcboats.com é sobre um instrumento para misturar as partes da resina, a resina propriamente dita e o endurecedor, que vem a ser uma haste cilíndrica de madeira onde se afixa dois pregos nos lados opostos e coloca-se na furadeira, o improviso parece com um rudimento de batedeira, mas funciona com eficiência e deixa a mistura da resina homogênea rapidamente.
Outro local na internet com dicas importantíssimas para o processo de colagem é o fórum do www.barcomania.com.br
Em 31/01/2006 dediquei a tarde a mais uma seção de trabalho na construção do caiaque, já com todas as partes coladas iniciei a segunda etapa que é a da costura das mesma, que consiste em juntar as partes com fios de cobre que passam por orifícios feitos no compensado com uma furadeira elétrica. Sem experiência, demorei em acreditar que as peças tomariam a forma desejada, mas assim que peguei o jeito consegui. As imagens que seguem são da parte inferior do barco (casco), agora já é possível vislumbrar as formas finais.



Estou dedicando grande parte do tempo no mês de fevereiro a construção do caiaque, agora em férias as preocupações diminuíram e o trabalho avança num ritmo bem mais rápido.
Nos primeiros dez dias do mês consegui montar todo o casco, o trabalho requer paciência, pois a cada aplicação da resina epóxi, seja para colar ou impermeabilizar as peças, é necessário aguardar a cura da mesma por um período mínimo de 24 h para que se possa dar continuidade ao trabalho.
Consegui neste período costurar todas peças com o fio de cobre. É nesta etapa que o caiaque começa a tomar forma, é bastante trabalhoso principalmente se estiver sozinho em virtude do compensado teimar em manter-se na sua forma original, obtive sucesso começando a costurar partindo da extremidade para o centro.




O passo seguinte foi colar as emendas das peças internamente e revestir por dentro o barco com tecido de fibra de vidro. Neste ponto tive que improvisar pois o material indicado para o trabalho é a fita adesiva de fibra de vidro que não tinha a disposição. Então dei seguimento ao projeto utilizando tiras do tecido de fibra de vidro que cortei conforme a necessidade (6 onças de gramatura). Nas emendas utilizei a resina epóxi adicionada de micro esferas que dá uma consistência pastosa a mesma e permite um acabamento melhor.

Dando seguimento colei as ripas do costado, nesse trabalho em virtude de inúmeros apertos de parafusos adquiri calos na palma da mão e nos dedos, descobrir a duras penas quanto é importante a chave de fenda elétrica que com certeza teria me poupado as mãos e tempo.


Ripas coladas, parti para a remoção dos fios de cobre pelo lado externo do casco, aqui também dedica-se um tempo considerável se você não estiver com uma ferramenta adequada, um alicate comum não corta o fio rente a base, é necessário utilizar um alicate de corte diagonal para se ter um melhor acabamento. Descobrir isto na prática tendo que retocar os cortes com o alicate adequado ou seja, fazendo o trabalho por duas vezes.
Mais uma etapa do projeto foi executada na tarde da sexta-feira 10/02. A confecção do assento e dos apoios para os pés, como estas partes embora fundamentais não constavam do plano adquirido, baseando-me em imagens encontradas em sites especializados, caiaques que andei e na análise da estrutura do barco que estou construindo, desenvolvi as duas peças com as sobras das ripas do costado e do compensado naval.
O assento esta afixado nas laterais do barco e nas ripas do costado, os apoios para os pés também estão afixados na lateral do barco. A técnica usada para prendê-los e a mesma utilizada para as ripas do costado, resina epóxi como elemento aderente e parafusos para ajudar no processo de aproximação das peças e favorecer uma colagem mais eficiente, lembrando que os parafusos após a secagem da resina são retirados. O resultado está ilustrado nas imagens abaixo.




No final de semana seguinte continuei o trabalho agora me dedicando ao acabamento do casco, retirei com minúcia as sobras dos fios de cobre, para tanto recorri a um alicate de corte, após esta etapa preparei a resina epóxi adicionada de micro esferas para fazer a "calafetagem" do casco externamente, este processo elimina todas as falhas existentes entre as emendas das peças e da consistência a estrutura do barco. Após a secagem dei seguimento ao trabalho recobrindo o exterior do barco com o tecido de fibra de vidro, neste processo é preciso ter cuidado com a viscosidade da resina, pois se ela estiver muito grossa não se consegue dar um bom acabamento (descobri na prática depois da primeira tentativa). O segredo consiste em diluir a resina com álcool isopropílico o que facilita enormemente a colocação do tecido de fibra.


O trabalho prossegue agora já próximo ao seu final, todas as atenções agora estão voltadas para as etapas de acabamento, nestes últimos dias foi feito o revestimento do casco com o tecido de fibra, a aplicação no interior de massa rápida para minimizar as imperfeições oriundas do processo de colagem (lembrando que sou "marinheiro de primeira viagem" quando se trata da construção de barcos, é fazendo que se aprende), e a aplicação do zarcão que prepara por fim a peça para receber a pintura definitiva.
Quero registrar que nesta semana através das comunidades virtuais dedicadas a canoagem, tomei conhecimento de um site http://www.blueheronkayaks.com/ no qual está disponível gratuitamente um software para elaboração de plantas de construção de caiaques. É muito interessante, vale a pena conferir, a diferença dos projetos que podem ser incrementados por meio do software para este que estou desenvolvendo é que a técnica utilizada, lá é a da colagem de ripas de madeira que resulta em belíssimos barcos, mas requer maior experiência, diferente da que estou utilizando que consiste em costurar e colar peças de compensado naval. Me vali do software para a confecção do molde da cabine o remador.



Dando seguimento ao projeto na segunda-feira a tarde,
dia 20, iniciei a afixação do convés. Neste ponto enfrentei um problema com o
tamanho das peças, dimensionei mal o corte e por pouco teria que r
efazer o
trabalho, ou seja cortar e colar novas peças do convés que implicaria num gasto
extra pois teria que adquirir mais uma folha de compensado. Mas a sorte de
principiante estava do meu lado e com um pequeno ajuste tudo se encaixou.
Da mesma maneira que a afixação das ripas do costado, a afixação do convés requer bastante cuidado e agilidade, se tiver disponível não deixe de usar chave de fenda elétrica (são muitos os parafusos a serem apertados), com certeza este instrumento lhe dará a agilidade que o trabalho necessita. Pelo método tradicional leva-se em torno de duas horas para finalizar o trabalho, é preciso correr pois a resina preparada para a colagem não espera e começa a endurecer pondo tudo a perder.
Uma ferramenta indispensável no processo de acabamento é uma lixadeira elétrica, usei um kit que acompanha alguns modelos de furadeira ou que podem ser adquiridos separadamente em lojas especializadas o mesmo foi muito útil no processo de apara das bordas do convés que extrapolam os limites de barco, substitui com eficiência a plaina. A preparação da parte externa do casco para o recebimento da pintura foi feito com massa rápida e zarcão branco. A maior parte do convés será envernizado, para separar as áreas que serão pintadas das envernizadas lancei mão de fitas adesivas.


A pintura requer paciência pois a tinta não seca na velocidade da nossa ansiedade de ver o trabalho pronto, gastei toda uma manhã para executar a tarefa e os retoques só foram possíveis de serem feitos no dia seguinte. Seguindo a orientação do projeto utilizei tinta a base de polurietano, aplicada com um rolo de lã de carneiro embora a melhor ferramenta para se conseguir um resultado superior seja a pistola com o compressor.


Passado o carnaval na tarde da quinta-feira o trabalho foi retomado, nesta etapa foi retirada as fitas adesivas que davam o limite para pintura, colada a gola da cabine do remador, aplicação de mais uma demão de resina epóxi sobe o convés e o acabamento das tampas dos compartimentos de carga.


A última etapa do projeto foi concluída na sexta-feira 3 de março, afixei nas bordas do convés "presilhas" para a passagem dos elásticos que permitem o acondicionamento de carga sobre o convés, as alças na proa e na popa para o transporte e as fitas que servem de fecho para as tampas dos compartimentos de carga da popa e da proa e por fim aplicada a última demão de verniz sobre o convés.


No sábado, 4 de março por volta das 11 h foi ao rio realizar o tão esperado teste da água. Chegando a margem do rio era grande a expectativa sobre a eficiência do barco, ao primeiro contato com a água nenhum problema aparente, a primeira preocupação advinha da vedação das emendas que foi superada sem problemas, não existe nenhum ponto no barco que permita a entrada de água no mesmo. O caiaque flutua soberano sobre as águas ao tempo em que sou envolvido com um sentimento misto de alegria e dever cumprido. O passo seguinte, o teste de navegabilidade, entrei na cabine do remador sem problemas, de cara percebi que é preciso um ajuste no finca-pé, é preciso colocá-lo um pouco mais para frente, as primeiras remadas mostram uma característica forte do barco, a instabilidade a baixa velocidade, que requer do remador uma certa experiência senão é "tombo" na certa. Falando em tombo, o fato foi comprovado na prática, um descuido numa manobra e fiquei do lado errado, dentro d'água. O ponto positivo é que pude verificar a flutuabilidade do caiaque quando emborcado que também apresentou-se positivamente, a vedação das tampas dos compartimentos de carga funcionaram bem e pouquíssima água penetrou nos mesmos.



Vou ficando por aqui sobre o relato da construção do meu caiaque, no futuro próximo vocês terão a oportunidade de ver aqui nesta página relatos das aventuras que farei com ele. Aos que almejam também construir um caiaque, recomendo, é uma experiência recompensadora, você empenha seus esforços para a conclusão do projeto e aprende muita coisa nova, como também relembra de vários conceitos que há muito tempo não punha em prática, além de ser uma excelente terapia ocupacional.
A instabilidade do barco levou-me a refletir sobre a causa do problema, veio então a suspeita que o problema pudesse estar relacionado com a altura do assento, resolvi então removê-lo. O teste que fiz no feriado da Páscoa ratificou a minha suspeita, sem o assento e sentado diretamente sobre o fundo do barco (centro de gravidade mais baixo, o problema da instabilidade desapareceu, o barco navega facilmente com boa velocidade e equilíbrio. Estou pensando numa solução nova para o assento que não eleve o centro de gravidade, pois ficar sentado diretamente no fundo do barco é desconfortável devido a sua configuração no formato de "V".